O Arquivo
O caderno que a bisa mandou guardar
Ela pediu que ficasse "só nosso". Agora abrimos uma parte desse caderno, do jeito que ela sonhou a capa. A história do caderno de poemas mais antigo do arquivo, com "Quando a Saudade Faz Morada" na íntegra.
A convivência rara de cinco gerações da família Ávila guardou um acervo vivo: joias, receitas, documentos e hábitos que fundem as heranças italiana e sefardita. Essa proximidade permitiu traçar ramificações genealógicas profundas, resgatando trajetórias medievais que pavimentaram o caminho para a cidadania europeia.
O ápice lírico dessa herança está nos cadernos de uma de nossas matriarcas. Sob a capa que exibe o desenho de uma árvore centenária, essa senhora de refinamento clássico dedicou anos a transcrever, registrar e guardar poesias e memórias dos antigos. Não é apenas obra autoral. Os manuscritos funcionam como um relicário: ela usou o dom com as palavras para dar corpo aos anseios, às dores, às fofocas e aos sonhos que atravessaram os séculos, garantindo que o passado chegasse intocado ao futuro.
Ela pediu que o registro dessas almas fosse publicado sob a imagem de uma senhora elegante que vê seu reflexo jovem no espelho. Em respeito ao seu último desejo, a família abre agora uma parte do caderno, do jeito que ela sonhou a capa. Começamos por um dos poemas mais antigos do arquivo.
Quando a Saudade Faz Morada
Venha saudade, para que eu possa,
Encontrar e abraçar meus pais
Reviver minha juventude,
Que tão longe, não volta maisSaudade forte entrando,
Em meu Peito devagarinho
E ali fizeste morada
Fazendo-me sofrer de mansinhoSaudade do meu lar,
meus filhos e netos também,
De alguém que no passado,
Pensei que me quisesse bem!Saudade de minha infância,
Que eu levava, tão livre
De algo que eu queria
Não sei porque nunca tive!Saudade de meus pais
Primos e irmãos
De minha adolescência.
Do caderno da nossa bisavó. I. B. Ávila.