O Arquivo
Poesia do hoje
Se a bisa cantava a saudade do interior, esta é a voz da geração seguinte: o asfalto, o café frio, o céu digital, e uma flor que cresce na fissura da calçada.
Nem toda poesia do arquivo vem do caderno de 1986. Esta é da geração de agora: fala de asfalto, de notificações, de um céu digital. É o outro lado da mesma saudade, escrito pela cidade que herdou a linhagem. Deixamos os versos como foram escritos.
No meio das luzes que tremem sobre o asfalto,
ergue-se o suspiro da rua, uma árvore sem sombra,
e a cidade respira em fole de ferro e vidro,
onde os passos correm para lugares que não chegam.Um café frio sobre a mesa anuncia o vazio,
e o céu digital acende-se para cobrir o silêncio,
enquanto a alma vagueia entre notificações e rosas mortas,
buscando um pedaço de chuva que lave o rastro.Aqui o vento domina os becos de concreto,
e o tempo se enrola como papel de embrulho usado;
as mãos tocam o nada, o microfone, o teclado, o olhar,
e esperam o eco de um verso que se fez estrangeiro.Há uma flor que cresce na fissura da calçada,
e ela ri do progresso que pisoteia esperanças;
porque mesmo no túnel mais obscuro há lâmpada que treme,
anunciando que o fim também é princípio disfarçado.O trânsito do mundo abrasa as horas ligeiras,
mas no vidro quebrado, a lua retorna ao pedaço,
e um rosto se volta para o espelho da noite,
com a pergunta antiga: “quem és tu, nesta máquina viva?”.E ao fim caminhamos incertos, entre gestos e fantasmas,
com a mochila cheia de promessas vendidas ao vento,
aguardando o instante em que a poesia surja,
e transforme o concreto em cântico ou no mais puro silêncio.
Irmãos Ávila.