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Seu sobrenome é sefardita? O que as listas dizem e o que só o documento prova

Milhares de brasileiros descobrem o próprio sobrenome em listas de "apelidos sefarditas" que circulam pela internet. Por que essas listas existem, o que as leis de Portugal e da Espanha realmente exigem, e por que o nome é só a porta.

Em algum momento da busca pela própria história, quase todo brasileiro esbarra na mesma pergunta, feita meio de brincadeira, meio a sério: meu sobrenome é sefardita? A pergunta não nasceu à toa. Desde 2015, Portugal e Espanha abriram caminhos de naturalização para descendentes de judeus sefarditas expulsos da Península Ibérica há mais de cinco séculos, e a notícia correu o mundo. Na esteira dela, passaram a circular pela internet listas com milhares de sobrenomes, prontas para qualquer um digitar o próprio e descobrir, em segundos, se “está na lista”.

Nós mesmos fizemos essa busca. Não por curiosidade de fim de tarde, mas porque um medalhão de rubi, um pergaminho e um álbum de veludo guardados na família não faziam sentido sozinhos, até virarem pergunta. E a pergunta, no nosso caso, levou a nomes, datas e um oceano. O que aprendemos no caminho é que a resposta rápida da internet e a resposta que vale para um cartório são coisas muito diferentes. Vale a pena separar as duas.

De onde vêm essas listas

A mais citada nem sequer tem certidão de nascimento clara, e isso já diz muito sobre o valor dessas listas. O que existe, de fato, é uma compilação de cerca de 5.220 sobrenomes associados a famílias judaicas ibéricas, montada por pesquisadores de genealogia sefardita, entre eles Harry Stein, Jeff Malka e B. Nahman, a partir de registros da Inquisição e censos de judiarias. Quando as leis de naturalização de Portugal e da Espanha viraram notícia em 2015, essa compilação passou a circular pela imprensa e por sites de curiosidades atribuída ao governo espanhol, como se fosse um documento oficial publicado por Madri em dezembro de 2012. Nenhuma fonte oficial confirma essa origem governamental. É um mito que pegou carona na notícia real das leis, e é a própria imprensa que reproduz essa lista, ou variações dela copiadas e recopiadas por sites de curiosidades, sem citar boletim oficial nenhum.

O problema é que essas cópias divergem entre si, às vezes na mesma letra. Buscamos especificamente o nosso sobrenome, Ávila, em quatro fontes diferentes. Em duas versões da lista original que circula desde 2014, o nome aparece. Em duas compilações mais recentes e mais criteriosas, voltadas especificamente para genealogia sefardita, ele não aparece. Um pesquisador da área, Luis Armando Cordero, resume o problema com uma frase que vale para qualquer sobrenome, não só o nosso: ter um sobrenome sefardita não é garantia de ter sangue judeu, porque boa parte desses nomes foi adotada por conversos, ou é simplesmente comum demais para servir de prova de qualquer coisa. Outro pesquisador do mesmo campo, Irving Gatell, vai direto ao ponto num artigo de título sem meias-palavras, “o mito dos sobrenomes sefarditas”: uma coisa é um sobrenome judeu, outra coisa é um sobrenome usado por judeus. A distinção parece sutil, mas muda tudo.

Ávila é um exemplo quase perfeito dessa ambiguidade. É, antes de mais nada, um nome de lugar: a cidade murada de Castela que já contamos aqui, com suas 87 torres. Sobrenomes assim, herdados do lugar de onde a pessoa veio, foram adotados por cristãos-velhos, por cristãos-novos e por judeus que nunca se converteram, todos ao mesmo tempo, ao longo de séculos. Um sobrenome toponímico não carrega, sozinho, a religião de quem o usou primeiro. Ele carrega só o endereço.

O que a lei realmente pede

É por isso que nem Portugal nem Espanha aceitam o sobrenome como prova, mesmo nos processos que eles próprios criaram para reconhecer justamente essa origem.

Em Portugal, o Decreto-Lei n.º 30-A/2015 alterou a Lei da Nacionalidade para permitir a naturalização de descendentes de judeus sefarditas com tradição de pertença a uma comunidade sefardita de origem portuguesa. O texto lista “apelidos de família, idioma familiar, descendência direta ou colateral” como elementos que ajudam a demonstrar essa tradição, mas o apelido entra como um item entre vários, nunca como a prova em si. Na prática, quem decide o pedido não é um cartório qualquer: é uma das duas comunidades judaicas reconhecidas pelo Estado português, a Comunidade Israelita de Lisboa ou a Comunidade Israelita do Porto, cada uma com critério próprio. A de Lisboa pede um relatório genealógico documentado, com certidões que liguem o requerente a um antepassado sefardita perseguido pela Inquisição entre os séculos XV e XVIII. A do Porto pede comprovação de pertença a uma comunidade judaica, por vezes por declaração rabínica. Nenhuma das duas empresta força de prova a uma lista de internet.

Na Espanha, a Ley 12/2015 seguiu caminho parecido e foi ainda mais explícita: um dos meios de prova admitidos é um “informe motivado, emitido por entidad de competencia suficiente, que acredite la pertenencia de los apellidos del solicitante al linaje sefardí de origen español”, mas esse informe precisa vir acompanhado de outros elementos, como certificado da Federación de Comunidades Judías de España, uso do ladino ou do haquetia como língua familiar, ou registros que demonstrem tradições sefarditas na família. O sobrenome sozinho nunca fecha o processo. Ele, na melhor das hipóteses, abre a pergunta que a documentação vai responder.

Por que a pergunta ainda vale a pena

Diante disso, seria fácil concluir que a busca não serve para nada. Achamos o contrário. A pergunta “meu sobrenome é sefardita?” é, quase sempre, o primeiro sintoma de uma curiosidade mais funda: de onde eu venho, de verdade? E essa curiosidade, essa sim, vale a pena seguir, só que pelo caminho certo.

Foi o que aconteceu com a gente. O sobrenome Ávila foi o primeiro fio que puxamos, mas ele por si só não provava nada, exatamente como as leis portuguesa e espanhola preveem. Um medalhão, um pergaminho e um álbum de veludo guardados na família sugeriam uma travessia, da Ávila espanhola até a Ilha Terceira, nos Açores, e de lá até o Brasil, mas sugerir não é provar. Quem deu nome e data a essa travessia foram as certidões, batismo, casamento, óbito, cruzadas documento por documento até um nome deixar de ser hipótese e virar gente. O nome abriu a porta. Foi o papel que mostrou o caminho do outro lado dela.

Não prometemos a você que, se o seu sobrenome aparecer numa dessas listas, isso resolve alguma coisa. Prometemos o oposto: que a lista, quando aparece, é só o começo de uma pergunta séria, e que essa pergunta merece ser respondida com o mesmo rigor que qualquer processo de nacionalidade exige. Isso significa arquivo público, certidão, e paciência para seguir um nome de registro em registro, sem atalho.

Se você quiser começar a puxar o fio do seu próprio sobrenome, o primeiro passo é gratuito e está ao alcance de todos: o FamilySearch (familysearch.org), o maior acervo genealógico aberto do mundo. Foi por ali que começamos a nossa reconstrução, documento por documento. Qual é a primeira história que você gostaria de encontrar sobre a sua gente?

Se você já ouviu, na sua própria família, uma versão da mesma pergunta, feita meio de brincadeira à mesa do almoço, qual foi o primeiro nome ou o primeiro objeto que despertou essa curiosidade?

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